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terça-feira, 29 de maio de 2018

Back To Orbit


Alex Paterson e seu fiel escudeiro, o suíço Thomas Fehlmann, preparam-se para jogar mais um álbum no mercado (o décimo quinto): No Sounds Are Out of Bounds está programado pro dia 22 de Junho, disco que marca a volta da parceria com a gravadora independente inglesa Cooking Vinyl (sai a alemã Kompakt, que lançou Moonbuilding 2703 AD, de 2015 e COW / Chill Out, World!, de 2016). Nomes de peso participaram das gravações, como o frequente colaborador (e exímio baixista) Youth (Killing Joke) e Roger Eno (irmão de Brian Eno). Saíram duas faixas como aperitivo, "Doughnuts Forever", mês passado e "Rush Hill Road", agora em Maio.

"Doughnuts Forever" é uma música que tem mais a ver - embora o instrumental soe mais "orgânico" - com o inacreditável álbum de estreia The Orb's Adventures Beyond the Ultraworld, de 1991, com samples de orquestra, uma belíssima levada de baixo, corinho angelical e trechos de vozes extraídas sabe-se lá de onde.  




Já na houseada "Rush Hill Road", a linha de baixo passa por cima de tudo como um trator, mas deixa espaço pros excelentes vocais de Hollie Cook (cantora e tecladista, filha do ex-baterista do Sex Pistols, Paul Cook) e misteriosos sons orientalizantes. Totalmente acessível mas não pasteurizada, "Rush Hill Road" está na mesma vibe de pista de "Toxygene" (1997, 4º lugar no paradão inglês de singles).



quinta-feira, 19 de abril de 2018

Abaixo de Zero



 O Underworld tocou em Reykjavik, capital da Islândia, dia 17 de março pela primeira vez desde 1994. Inspirada pela apresentação, a dupla britânica lançou uma nova faixa, "Brilliant Yes That Would Be" e o diretor (e frequente colaborador do duo) Simon Taylor criou um vídeo em que casa direitinho a aridez das belas e frias paisagens islandesas com o tema. "Brilliant Yes That Would Be" usa teclados plácidos e sombrios como pano de fundo para um improviso doloroso, congelado por um sintetizador lancinante. De arrepiar, em todos os sentidos.

"Brilliant Yes That Would Be: Underworld volta abaixo de zero.

domingo, 8 de abril de 2018

Silent Nightmares

 

Silent Poets e Nightmares On Wax: dois nomes da eletrônica trilhando o arriscado caminho do downtempo. É preciso mais do que experiência, bom gosto e sensibilidade pra não resvalar na pieguice com discos do gênero?


O Silent Poets, que já foi um duo, mas hoje é um projeto solo do DJ e produtor japonês Michiharu Shimoda, assusta no começo ao equilibrar-se perigosamente sobre a linha que separa o sentimentalismo extremo da ousadia em seu novo álbum Dawn (o primeiro em doze anos, saiu em Fevereiro pelo selo de Shimoda, Another Trip). As duas primeiras faixas, "Asylums For The Feeling" e "Distant Memory", com arranjos de cordas adocicados e envolventes, deixam dúvidas a respeito da capacidade de Shimoda montar canções que vão além do lounge na linha Café Del Mar. As incertezas vão se dissipando a medida que o disco avança - especialmente por causa dos reggaes de torque alto e lento que vem a seguir. A exuberante "Shine", com seus metais e ecos em profusão, o ragga "Non Stoppa" e o sensacional dub em slow motion "Division of the World", provam que Tóquio e Kingston podem estar mais próximas do que você imagina. Some a isso raps em japonês ("Tokyo", "Eternal Life"), beats espertamente engendrados (a instrumental "Rain" é um dos melhores exemplos), vozes escolhidas a dedo (a urgência da rapper israelense Miss Red e o timbre lindo da ótima Hollie Cook, filha do ex-baterista do Sex Pistols, Paul Cook, entre elas) e Dawn já é uma volta do Silent Poets a ser celebrada da melhor maneira possível: ouvindo o disco várias vezes.

"Division of the World":



O DJ e produtor britânico George Evelyn, a.k.a. Nightmares On Wax, já tem 30 anos de carreira e, além de ajudar a cimentar o trip-hop no começo dos anos 90, vem lançando álbuns sólidos e bem pensados ao longo desse tempo. Seu recente Shape The Future (lançado em Janeiro pela Warp Records) é diversificado sem perder a homogeneidade. O disco vem sob a forma de conexões enfumaçadas com a Jamaica (como em "Tomorrow" e "Citizen Kane", com dinâmica de reggae e técnicas herdadas diretamente do dub), enxertos de jazz ("Typical", "The Other Ship"), soul ("Deep Shadows"), blues ("On It Maestro") e farta distribuição de timbres amadeirados de teclado, identificáveis pelos tons quentes dos pianos elétricos e nos efeitos analógicos dos sintetizadores. Usando de tecnologia discreta (perceptíveis quase que exclusivamente nas programações de bateria), Evelyn gravou mais um álbum em que a expressão retrofuturismo é apta para definição, sem culpa.

"Shape The Future":
     

quarta-feira, 7 de março de 2018

Boa Noite, Tristeza


Esqueça o Moby craque das pistas, o exímio sampleador, as divas flamejantes exalando vida e suor a cada nota, o furor do techno e a redenção via blues eletrônico.

Basta uma olhada nos títulos das músicas pra sacar o que contém esta quase uma hora de Everything Was Beautiful, And Nothing Hurt (Mute), novo álbum do produtor americano: "The Last of Goodbyes", "Welcome to Hard Times", "The Sorrow Tree", "This Wild Darkness", "A Dark Cloud Is Coming" e por aí vai, divã abaixo. Sobra escuridão, melancolia e baixo astral, tudo regado com arranjos pesadíssimos (no sentido lúgubre do termo). Ouça a sessão de cordas macambúzia de "The Ceremony of Innocence" e afaste-se imediatamente de qualquer objeto cortante; perceba a voz embargada do robozinho-vocoder de "The Tired and the Hurt" e, por análise combinatória, constate que "This Wild Darkness" supera "Times Change" do New Order e assume o posto de rap mais triste da história.

Alguma luz no fim do túnel com os timbres amadeirados do piano elétrico e os bons vocais de Apollo Jane em "Welcome to Hard Times", a voz algo Liz Fraser de Julie Mintz em "The Sorrow Tree" e o trip-hop portishediano de "A Dark Cloud Is Coming", insuficientes para clarearem o ambiente escurecido que permeia o álbum.

Pode muito bem ser dito que Everything Was Beautiful, And Nothing Hurt é introspectivo e reflexivo e que não passa de um espelho que reflete a situação realmente desanimadora do mundo atual. Pra mim, é só triste, mesmo, em todos os aspectos. E tô fora.


"Mere Anarchy": Moby em frangalhos.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Paul Jason Solo


Paul Jason Robb, produtor do technopop americano de segundo escalão (Red Flag, T42) e de bons nomes do freestyle (TKA, Noel), além do seu Information Society, tem um currículo interessante, mas eu mal sabia que ele tinha uma carreira solo. Vi dia desses que Robb acaba de lançar seu quarto (!) álbum, Impossible Piano, por seu próprio selo, HAKATAK International. O título é oportuno, porque a maioria das nove faixas aqui traz temas instrumentais que tem o piano tratado eletronicamente de modo a parecer realmente improvável a extração desses sons pela simples execução num Steinway & Sons da vida. Os efeitos (ecos, rufos, reverbs), reforçados pelas camas lúgubres de cordas que emolduram as composições, criam paisagens oníricas de placidez e serenidade, sensação potencializada pelo timbre abafado do piano, onipresente nos sons registrados no disco. A viagem de Robb fica no meio do caminho entre ambient e eletrônica, pendendo para um certo darkismo facilmente detectável em Impossible Piano. O surrado clichê que fala numa suposta "trilha sonora para um filme imaginário" é conveniente para tentar decodificar o trabalho. 

Se você acha o incensado Ambient 1: Music for Airports, de Brian Eno, um saco, fuja. Se quer um acompanhamento sonoro para noites de leitura, vinho e frio, é o que há.

Impossible Piano: todinho no Bandcamp.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Techno Comportado


Prolífico e inquieto, o produtor londrino Kieran Hebden (a.k.a. Four Tet) fez sua discografia virar uma deliciosa confusão. Em 2017 já rolou o álbum There Is Love In You (originalmente lançado em 2010) e simultaneamente, sua versão de remixes, retrabalhada por artistas como Jon Hopkins, Floating Points e Joy Orbison. Teve também o EP Ringer (em Janeiro) e duas faixas que saíram recentemente, "Two Thousand And Seventeen" (em Julho) e "Planet" (Agosto).

"Two Thousand And Seventeen" é uma canção ambient relaxante que parece ter sido gravada no alto do Monte Fuji, no Japão. Com batida de hip-hop em slow motion, teclados atmosféricos e um instrumento de cordas que lembra o tradicional shamizen japonês, é perfeita para aquele momento do dia em que se pensa em coisas como a política nacional e o preço do quilo da costela de primeira.



Já "Planet" é um techno comportado, com uma base de pouca variação melódica. Não acho lá muito excitante pra pista de dança, a despeito dos gemidos bem sexy dos samples vocais. O electro-shamizen aparece de novo e acaba deixando a faixa mais para se apreciar do que se movimentar. De qualquer forma, mantém o nível das produções de Four Tet bem acima da Troposfera. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Melhores de 2016 - Discos (#06: Pantha du Prince)


Quatro anos depois do arrojado Elements of Light - álbum que é uma espécie de sinfonia eletroacústica de uma peça só, gravado com o grupo de percussão norueguês The Bell Laboratory - o produtor alemão Hendrik Weber a.k.a. Pantha du Prince retorna com mais um trabalho que impressiona. Classificar The Triad (lançado pela célebre Rough Trade) simplesmente como techno minimal é deveras simplório. Na maioria das dez faixas há o 4x4 de BPM moderado como esqueleto, mas o que Weber desenvolve por cima disso vai muito além de um rótulo caracterizado pelo uso mínimo de elementos de composição. Não precisa mais do que ouvir a chuva de cristais sintéticos espalhando-se por faixas como "Lichterschmaus" e "You What? Euphoria!", vocalizes angelicais ("The Winter Hymn"), riffs precisos de sintetizador ("Frau Im Mond, Sterne Laufen"), basslines robustos impulsionando uma variedade deslumbrante de sons e efeitos ("Chasing Vapour Trails") e canções eficientes em sua rigidez geométrica de beats e programações eletrônicas ("Dream Yourself Awake", "Lions Love"), pra entender que este disco está à quilômetros de distância de um simples álbum de dance music. Pantha du Prince consegue - como poucos hoje em dia - unir elementos de forma tão harmoniosa e precisa, que fica difícil distinguir em sua música onde exatamente entram os componentes orgânicos e onde saem os sintéticos. The Triad tem um teor extremamente particular e profundo, que faz com que a tecnologia empregada soe de forma incrivelmente natural (e até visceral), incorporando-se perfeitamente ao ambiente - seja ele uma pista de dança ou a solidão-conforto da sua sala de estar.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Melhores de 2016 - Discos (#10: The Orb)


Imagine o clássico e obrigatório debut do Orb, Adventures Beyond the Ultraworld (1991), sem as baterias. É nessa onda que COW / Chill Out, World!, décimo quarto álbum de material original do projeto ambient house de Alex Paterson, vai. Coletando sons com seu iPhone e jogando num laptop durante sua turnê do ano passado (juntamente com Thomas Fehlmann), Paterson foi montando o disco. O processo demorou seis meses e o que a dupla entregou foram dez faixas onde tudo é climático e indecifrável, ambient em essência, mas sem identificação imediata com nenhuma cultura específica. Ao contrário de Adventures Beyond the Ultraworld (com sua temática calcada em longas expedições pelo espaço sideral), COW / Chill Out, World! sobrevoa paisagens terrenas e as transforma numa espécie de paisagismo sonoro rico em timbres, texturas e climas. Um dos pontos altos da carreira do Orb, um dos melhores álbuns de eletrônica do ano passado.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Discos do Ano: LA Priest


Ex-guitarrista e vocalista da finada banda britânica de dance-punk Late Of The Pier, Samuel Eastgate assumiu seu alter ego LA Priest, abraçou suas influências de David Byrne, Prince e Arthur Russell e lançou (no meio do ano) um dos melhores discos de 2015. Com doses muito bem calibradas de experimentalismo e pop, Inji (Domino) encaixa-se em várias categorias, mas não pertence a nenhuma, especificamente. A primeira metade do álbum é arrebatadora. O funk em câmera lenta da abertura "Occasion", com seus solos lânguidos de guitarra, órgãos sacros e vocais lascivos soam mais Prince do que qualquer coisa do último álbum (HITnRUN phase one, lançado em Setembro) do geniozinho de Minneapolis. "Lady's In Trouble With The Law" é como se Terence Trent D'Arby tivesse ressuscitado da morte artística e lançado um dos singles mais bacanas de soul/pop dos últimos tempos. A desolação instrumental de "Gene Washes With New Arm" parece um pequeno e sintomático reflexo sonoro do atual isolamento de Eastgate num pequeno vilarejo do País de Gales: timbres irregulares de instrumentos indefiníveis que há alguns anos seriam incluídos facilmente sob o guarda-chuva da world music, mas que hoje pedem um novo nome (Ambient, Downtempo, você escolhe). Ainda sem pular nenhuma faixa, talvez a grande canção do disco, "Oino" ("Oh I Know", sacou?) continua com a desafiadora tarefa de tentar descrever que música é essa. Na minha cabeça, parece um reggae muito distante de Kingston, tocado por argelinos. "Party Zute / Learning To Love" é disco torta, com uma linha de baixo brilhante, mudanças de andamento e oito minutos de euforia prontos pra serem consumidos nas pistas menos cafonas. Pra completar, Inji ainda tem a sonhadora "Fabby", a house comportada "Night Train" em BPM baixo e teclados escolhidos, literalmente, a dedo e a progressiva que não dá sono "A Good Sign". O pop atual precisa de mais gente como Samuel Eastgate: ousado, talentoso e com um senso melódico apuradíssimo. Não à toa, cravou um dos álbuns do ano.

"Oino": inclassificável, mas de fácil digestão.

terça-feira, 3 de março de 2015

Back To Norway


Em 1998 era praticamente impossível que eu tivesse ficado sabendo do lançamento de Nedi Myra, o primeiro álbum do norueguês Bjørn Torske. A internet ainda engatinhava por aqui, a Bizz agonizava e a MTV já tinha deixado de ser relevante há pelo menos uns cinco anos, então, como é que eu ia saber que esse disco saiu naquele ano pela minúscula Ferox Records - selo britânico de techno de propriedade do DJ e produtor Russ Gabriel? Bom, o importante mesmo é que agora, em 2015, ele acaba de ganhar uma reedição remasterizada, pela gravadora norueguesa Smalltown Supersound. E é uma maravilha.

A primeira constatação é que, passados 17 anos de seu lançamento e levando-se em consideração o cenário em 1998 e o atual, Nedi Myra não perdeu um pingo do seu frescor. A segunda é (re)descobrir um disco que merecia e muito, ter saído do anonimato.

Torske explora house music e ambient de tal forma, que a osmose sonora acontece naturalmente e a separação de ambos torna-se impraticável em suas oito faixas. Com a ajuda de um bom fone de ouvido, é fácil se deixar envolver por sons que induzem o ouvinte às paragens geladas do Ártico, tanto na cinematográfica abertura de "Limb Fu" (com sua linha de baixo orgânica e solos de flauta que atravessam a música) quanto nos sintetizadores nebulosos de "Eight Years", um breakbeat entrecortado por teclados de movimentos tão repentinos quanto a dança das luzes da aurora boreal. Jazzy e elegante, Nedi Myra acerta em cheio na escolha dos timbres - seja nas emulações de órgãos de "Beautiful Thing", na magistral sessão de cordas e no xilofone do aparentemente improvável encontro da deep house com o easy listening de "Fresh From The Bakery" (esta ainda com uma notável e minuciosa variação de hi-hats) ou nos efeitos borbulhantes dos synths de "Smoke Detector Song", encharcados de wah-wah.


As batidas apresentadas em Nedi Myra são um caso à parte. Não se resumem ao esquema bumbo e caixa de um 4x4 entediante: há desde as criativas viradas de bateria de "Beautiful Thing" até a polirritmia de "Eight Years", a levada sambística da bossa lounge "Ode To a Duck", os beats de hip-hop de "Smoke Detector Song" e a programação de "Station On Station" - uma percussão com toques de industrial que lembra os ataques estridentes de "Metal On Metal", do Kraftwerk.


  Nedi Myra transpira musicalidade, é altamente criativo e, principalmente, uma delícia de ouvir. De quebra, mostra que Bjørn Torske - além de colaborador frequente do Röyksopp - é um produtor talentosíssimo que merece estar num lugar no mundo da eletrônica ao lado de gente como Lindstrøm e Todd Terje. Redescubra já.

"Limb Fu": cinematográfica.

sábado, 22 de novembro de 2014

25 Anos à Frente


Responsável por boa parte do que de melhor se produziu na música eletrônica - dançável ou não - nos últimos tempos, a gravadora Warp completa 25 anos de atividades em 2014. Pra se entender um pouco da escala evolutiva e do pioneirismo do selo, o Bleep (site de vendas de música e afins da Warp) pinçou 26 faixas do invejável catálogo da gravadora originária de Sheffield para a coletânea Bleep Selects: 25 Years Of Warp.

Na contramão do pop e apostando sempre em artistas sem medo de experimentar, um dos primeiros singles lançados pela Warp, o marco techno de frequências de sub-grave inacreditáveis "LFO" (1990, do projeto homônimo do recentemente falecido Mark Bell), provou que a gravadora estava no caminho certo: 130 mil cópias vendidas e 12º lugar no paradão inglês. A música está na compilação, mas como a regra é incluir uma faixa de cada ano, fãs de dance music mais fervorosos (e com boa memória) vão sentir a ausência de "Tricky Disco", outro grande hit do selo do mesmo ano. Por outro lado, os nomes inclusos dão uma excelente amostra da importância da Warp para a eletrônica (Autechre, Nightmares on Wax, Boards of Canada, Aphex Twin, Squarepusher), ao mesmo tempo em que exibem o leque de possibilidades que a gravadora abriu com o passar dos anos (para o desespero dos puristas), ao abranger gente como Jamie Lidell, Grizzly Bear e Battles. Não sou saudosista, mas a metade anos 90 da coletânea surra sem dó os artistas da década seguinte. Admiro a postura firme e independente da Warp com relação ao seu cast e seus lançamentos, desde sempre, mas Grizzly Bear, Battles e Rustie não me convenceram ainda de que merecem estar nesta gravadora. De qualquer maneira, Bleep Selects: 25 Years Of Warp é uma aula sobre música eletrônica que não dá pra cabular.

"LFO (Leeds Warehouse Mix)": arrebentando (literalmente) alto-falantes mundo afora.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Remarinados


É até perdoável que você tenha passado em branco por This Time Last Year, o bom álbum lançado ano passado por um dos projetos precursores do ambient techno - o Ultramarine. Não dá pra acompanhar todas as novidades mesmo, blá blá blá. Mas ainda dá tempo de correr atrás e garanto, vale a pena. Pecado mesmo é nunca ter ouvido o segundo disco gravado pela dupla britânica Ian Cooper e Paul Hammond, Every Man And Woman Is A Star (1991), um dos pilares do gênero.

De qualquer maneira, o Ultramarine apareceu com mais uma novidade pra te lembrar que eles ainda estão na ativa e ainda são relevantes: saiu há pouco o single ‎ Passwords, com três faixas pinçadas de This Time Last Year e habilmente remixadas.

Tem o post-rock original "Eye Contact" houseificado por Kai Alcé, a quase jazz "Passwords" ganhando em dançabilidade com o Hercules & The Love Affair e a desolação de "Decoy Point" soando duplamente angustiada pela lente fria do duo Juju & Jordash.

Uma geral em Passwords:

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Melodias Subaquáticas


Há uma linha tênue que separa experimentos com sons ambientais e eletrônica da cafonice em que resultam a maioria destas tentativas. Ultimamente, ou vira trilha da problemática série Café Del Mar ou entra numa chatíssima vibe new-age-pra-chamar-gnomo. Um tanto desconfiado, fui ouvir o novo EP do duo australiano Willow Beats e - surpresa - gostei. Water reforça o interesse que vem aumentando no som deles. Existe uma clara aproximação com o dubstep na maioria das faixas, perceptível nas frequências subterrâneas dos baixos e nas batidas fraturadas. Os samples não impressionam, mas preenchem as faixas sem exageros: vão dos habituais trinados de pássaros ("Guardian") e amostras da floresta até diversas referências ao título do EP. A melhor das seis canções de Water é, sem dúvida, a abertura "Merewif" (que parece título de música do Cocteau Twins). Aqui, a fusão eletrônica/ambient encontra seu ponto ideal, fazendo-se valer da batida dançante e dos vocais angelicais de Kalyani Ellis. Water pode ser ouvido inteiro na página do projeto no Bandcamp (assim como os outros dois EPs já lançados).

"Merewif": faltou o Ian Thorpe.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Bomnobo


Sob o pseudônimo Bonobo, o produtor britânico Simon Green lançou ano passado The North Borders, um ótimo disco de eletrônica e uma bem resolvida e minuciosa fusão entre downtempo e ambient. Em Junho último, Green apareceu com o EP Ten Tigers, com duas faixas do álbum retrabalhadas mais uma inédita. A própria "Ten Tigers" não perdeu seu loop de piano original e ainda ganhou uma linha de baixo oscilante e baterias mais esparsas na versão "Bengal Edit". A nova "Duals" exibe a criatividade de Bonobo na justaposição de camadas de teclados e o senso rítmico do artista, que encaixa com precisão e elegância a batida aos sintetizadores. O grande destaque do EP, no entanto, é o remix da DJ, produtora e gata Maya Jane Coles para a belíssima "First Fires". Originalmente delicada, sinfônica e com os vocais blueseiros do compositor americano L.D. Brown (Grey Reverend), a "First Fires" houseificada imaginada e realizada por Maya - que também é engenheira de áudio - tem frequências de sub grave aproximando-se do limite que o ser humano consegue ouvir. Sensacional.

"First Fires" (Feat. Grey Reverend) [Maya Jane Coles Remix]: soco no plexo solar.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Custom Music


Tá lá no site da Vinyl Factory: "Originalmente encomendado pelo Beaux Arts Palais de Lille para o projeto Museu Aberto, que acontece neste verão, Music for Museum é o primeiro disco do Air desde 2012. É também a primeira trilha sonora de um museu."  


E é isso. Feito sob encomenda (a tiragem é de mil cópias em vinil, sem lançamento digital), fico em dúvida em considerar Music for Museum um álbum, como se diz, de carreira. A certeza que tenho é de que este é um momento menor na discografia de Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin. A explicação é simples: pra quem, como eu, não tiver o prazer de presenciar a experiência audiovisual proposta pelo museu, ouvir tão somente o disco pode soar insípido. A sonoridade lânguida e a placidez atmosférica perpetrada pela dupla não me envolveu - nem me deixou inebriado, como sugere a apresentação da Vinyl Factory. São faixas longas e fluidas, com ausência quase total de batidas e timbres etéreos ("Reverse Bubble", "Angel Palace"). O disco vai assim até a quarta faixa, e somente na seguinte, "Art Tatoo", quando ameaça despertar com uma profusão de arpejos de sintetizador, a ideia esgota-se em sua própria extensão: quinze cansativos minutos. De interessante, o clima sci-fi de "Octogum", as formas circulares de "Vulcano Kiss" e os reversos assustadores de "North Cloud". Haverá, com certeza, ouvintes muito mais atentos às qualidades do projeto, mas confesso não ter essa sensibilidade toda. Não que seja elitista, mas Music for Museum é um disco para poucos.

"Land Me":

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Intelligent Electronic Music

Começamos assim: sem essa de IDM, esse rótulo safado. Isso não é dance music. IEM, que tal? Música Eletrônica Inteligente me parece mais adequado. Isso posto, dois lançamentos bacanas, um do veterano Mike Paradinas (a.k.a. µ-Ziq), outro do texano Jeff McIlwain (a.k.a. Lusine).



µ-Ziq aparentemente deixou de lado suas (des)construções rítmicas perpetradas no século passado (como no amalucado Lunatic Harness, de 1997) e aposta agora em timbres nostálgicos e estruturas menos complexas - mas nem por isso, desinteressantes - em seu EP Rediffusion. "Taxi Sadness" tem lá sua quebradinha drum'n'bass, mas os sintetizadores à The Orb massageiam delicadamente os ouvidos. Vozes angelicais aparecem em "Rimmy" (pense naquele esquisitíssimo teclado chamado Orchestron, usado para os coros de "Showroom Dummies", do Kraftwerk), efeitos aquosos colaboram para o clima onírico de "PRG" e Paradinas só patina mesmo com a arrastada "Tambor", que encerra o disco.

"Taxi Sadness":


O Lusine também não nasceu ontem: já se vão bons quinze anos desde seu debut epônimo. O projeto de Jeff McIlwain apareceu ano passado aqui no blog com o bom álbum The Waiting Room e agora McIlwain acaba de soltar o EP Arterial. Dosando a acessibilidade de Waiting Room com um experimentalismo contido e sintetizadores inspiradíssimos, Arterial tem quatro faixas com vida própria, desde a linda melodia instrumental da faixa título até o esquartejamento vocal de "Forks". De quebra, beats de hip-hop e uma sujeirinha contínua de vinil gasto. Maravilha.

Arterial EP, inteirinho pra audição: 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Segunda Class: William Orbit


A ambient music tornou-se um terreno perigoso, pra não dizer improdutivo. Até o renomado William Orbit escorrega algumas vezes em seu novo álbum Strange Cargo, o quinto da série iniciada em 1987.

O perigo aqui mora na abertura meio Neverending Story de "On Wings" e em composições que são puro pop de churrascaria, como as melosas "Big Country" e "Willow" - faixas que para um desavisado identificariam Orbit como um Richard Claydermann do techno, se ele não fosse inteligente o bastante pra compensar essas pisadas em falso com a sessentista "Just a Night Or Two" (lembrando sua produção com pinceladas psicodélicas para "Beautiful Stranger", de Madonna), a sufocante e autoexplicativa "I Paint What I See" (com vocais sussurrados por Beth Orton), a timbragem anos 90 de "Lode Star", o clima desolador das guitarras de "Recall" e o dub techno de "Parade of Future Stars". Ainda rola uma citação de "Trans-Europe Express" do Kraftwerk (na percussão inicial de "Poppies") e um encerramento bem otimista com o belo arranjo de "The Changeling", tudo disponível para audição na página do produtor no Soundcloud. Orbit conhece o campinho.

"I Paint What I See": sublime.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Segunda Class: Bent


"Swollen", a original de 2000, gravada pela dupla de Nottingham Bent, já era uma delícia - eletrônica relax com um climinha onírico proporcionado pela sessão de cordas e pelos vocais da convidada Zoë Johnston:



Jon Marsh (The Beloved) deu um tapa na faixa pra coletânea The Chillout Session (2001, Ministry Of Sound) e o resultado foi essa fartura percussiva orbitando em torno do baixo, agora com vida própria. Fora o nome do remix, brilhante: "Beloved Café Del Marsh Mix". Um primor.

  "Swollen", versão remix por Jon Marsh:

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Segunda Class: Biosphere


A música eletrônica ambiental dos anos 90 foi de uma abundância e qualidade impressionantes. Desta cena saiu o norueguês Geir Jenssen, responsável por um clássico irrepreensível do gênero, o inacreditável Substrata, de 1997.



Até chegar na placidez hipnotizante de Substrata, Jenssen foi lapidando sua fórmula em dois álbuns de ambient house: a excelente estreia Microgravity (1992) e o seguinte Patashnik (1994).

Patashnik 2 chega 20 anos depois ao mercado, trazendo faixas inéditas que ficaram de fora do disco original e mixagens alternativas para músicas presentes no registro, gravadas entre 1992 e 1994. Ora dançante, ora absorto em mergulhos profundos em camadas de sintetizadores congelantes e samples de diálogos de filmes de ficção científica, Patashnik 2 torna-se uma obra tão essencial quanto sua matriz. No caso do Biosphere, um álbum de sobras que não soa menor ante a discografia notável de um gênio da ambient, como Geir Jenssen.

Disponível para audição e venda (com preço sugerido de €10 Euros) na página do Bandcamp do projeto. Altamente recomendável.

"Novelty Waves v.1": dançando nas calotas polares.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

As 65 Músicas de 2013 - Parte 2 (37 - 11)


Continua a saga.

37 - "One Way Trigger" - The Strokes



36 - "Real Slow" - Miami Horror feat. Sarah Chernoff



35 - "Step Together" - Joe Goddard feat. Boris Dlugosch



34 - "Piano In The Dark" - Nick Curly



33 - "Loveheadshot" - inS



32 - "Waiting All Night" - Rudimental feat. Ella Eyre



31 - "Oceania" - Martyn



30 - "What Have You Done To Me" - Mario Biondi



29 - "Desire" - Roska feat. Vanya



28 - "Stars" - Zero Cult feat. Kerensa Stephens



27 - "Mogadisco" - JBAG



26 - "Heaven" - Depeche Mode



25 - "Don't Call It Love" - Zero 7



24 - "Blurred Lines" - Robin Thicke Feat. T.I. & Pharrell Williams



23 - "Gallowdance" - Lebanon Hanover



22 - "Go Gentle" - Robbie Williams



21 - "Gimme Your Love" - Morcheeba



20 - "Honey Honey" - Cosmetics



19 - "Over Your Shoulder" - Chromeo



18 - "Instant Crush" - Daft Punk feat. Julian Casablancas



17 - "Strictly Reserved For You" - Charles Bradley



16 - "Now Is Not The Time" - CHVRCHES



15 - "Mon Sound" - Raggasonic



14 - "Happens All The Time" - Depeche Mode



13 - "Lose Yourself To Dance" - Daft Punk



12 - "We Can Go" - Gui Boratto



11 - "Good For The City" - Kraak & Smaak feat. Sam Duckworth



Próximo capítulo: As 65 Músicas de 2013 - Parte 3 (10 - 01).