O MGMT sempre foi meio esquisitinho, psicodélico e chapado em sua eletrônica revisionista de, até agora, três álbuns: a boa estréia Oracular Spectacular (de 2007, que gerou os ótimos singles "Kids", "Electric Feel" e "Time To Pretend"), o fraquíssimo Congratulations (2010) e o autointitulado MGMT (2013), que passou totalmente batido (ao menos pra mim). Eis que a dupla americana formada pelos cantores e multi-instrumentistas Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser retorna agora com um single ("Little Dark Age") e um álbum de mesmo nome, programado pro início do ano que vem. Vídeo e música mantém o padrão imposto especialmente no primeiro álbum - dosando pop e experimentação -, mas nesse single o MGMT aponta seus sintetizadores mais em direção à 1982 do que 1968. É um synthpop de sobretons neogóticos e belos arpejos em progressão no refrão. Gostei bastante.
A culpa é, de certa forma, do próprio Chemical Brothers. Quando Ed Simons e Tom Rowlands conceberam a obra-prima Dig Your Own Hole (1997), eles certamente não poderiam prever que nada que viesse depois iria superar esse álbum. Substituir parte das baterias cruas do big beat enérgico que estourou o som da dupla mundo afora pelo technão 4X4 que tomou metade do trabalho seguinte Surrender (1999), foi não só uma correção de rota ou busca de novos limites pra sua música, mas também uma clara (e louvável) tentativa de fugir de estereótipos, autorreferências e comparações. A atitude deixou vários órfãos entre os fãs, arrebatou tantos outros (especialmente por causa do hit "Hey Boy Hey Girl") e foi muito bem recebida tanto pelo público quanto pela imprensa especializada. A marca indelével no som do grupo, porém, ficou bem definida e o que não dá pra ignorar é que a partir daí, cada vez que se fala em disco novo do duo, a gente já consegue prever - com bom índice de acertos - o que vem a seguir. O mix de rap, funk, house, psicodelismo e rock não pega ninguém de surpresa. E é aí que está o pecado (perdoável) dos Brothers, independente dos altos e baixos na sua discografia. Em compensação, penso não decepcionar nem quem os acompanha há algum
tempo, nem quem está descobrindo a química dos irmãos postiços somente
agora. O que vale, claro, é deixar-se levar pelas suas criações que muitas vezes desafiam classificações possíveis, num entra-e-sai de gêneros que fundem-se entre si até gerarem coisas como o big beat - que teve no debut Exile Planet Dust (1995), seu marco zero. Em seu oitavo álbum, Born In The Echoes, lançado mês passado, não é diferente.
Como sempre, o disco traz cantores convidados e aqui a bola da vez é Annie Clark (St. Vincent). É fato que Rowlands e Simons tem essa certa predileção por artistas cool, mas não vi nada que fizesse diferença em sua participação tímida na gravação de "Under Neon Lights" - ao contrário de gente que já esteve nos créditos de seus álbuns, como Hope Sandoval e seus vocais particularíssimos, por exemplo - fora a
impressão de que o fator "queridinha do momento" da musa indie ganha em relevância no que tange ao respeitável fole vocal de uma Beth Orton, outra colaboradora frequente da dupla.
Ali Love também se sai mal. O cantor britânico, que já tem uma faixa (a razoável "Do It Again", de 2009) com os Brothers no currículo, aparece messiânico e irreconhecível no techno "EML Ritual", o que tanto pode ser uma prova de versatilidade do vocalista quanto uma simples adequação à temática proposta (eles sabem o que estão fazendo, mas abrir mão do falsete agradável de Ali é subaproveitar seu potencial).
Já Q-Tip (do A Tribe Called Quest) casou muito bem sua excepcional qualidade de parecer rapear com um prendedor de roupas no nariz com a levada empolgante de "Go!", talvez a melhor música do disco (ele também se saiu magistralmente em outra colaboração com o duo, "Galvanize", de 2005), a despeito do vídeo tenebroso:
Uma das faixas mais legais é a que menos soa Chemical Brothers. A melancolia reluzente e a simplicidade eletrônica de "Wide Open" (com vocais de Beck) lembram um hipotético Hot Chip com um vocalista decente.
O que me dá um certo receio é perceber que eles precisam, eles fazem questão, de destruir boas ideias com alguma minúcia que pareça pretensamente artística. Tome o funk hipnótico de "Let Us Build a City" (incluída como uma das bonus tracks da Deluxe Edition), como exemplo. Precisava mesmo aqueles sintetizadores tocados com os cotovelos? Não sei se é uma estupidez jogar fora uma linha de baixo preciosa como essa com umas bobagens atonais com jeitão de improviso ou se é isso que faz seu som tão particular.
A esquisitice da simplesmente intragável "Taste Of Honey", é uma ode à chatice, mesmo. Trôpega e incômoda, dá pra clicar no botão skip sem a menor culpa. O mesmo vale para "I'll See You There", mais uma faixa inspirada em "Tomorrow Never Knows" (Beatles), assim como "Setting Sun" e "Let Forever Be". "Born in the Echoes" é um bom pedaço de rocktrônica do álbum e a psicodelia de "Radiate", cumpre a função habitual de desacelerar por instantes o andamento quase frenético dos seus discos.
A remissão de Rowlands e Simons é um clichê surrado, mas válido: a falsa expectativa por material inédito produzido pela dupla é encoberta pela certeza de que os Brothers nunca embarcaram - mesmo - em nenhuma febre de pista qualquer pra se manter "atualizados" e não seria depois de sete discos que isso iria acontecer. Por outro lado, é covardia comparar Born In The Echoes com trabalhos anteriores. Mas é, também, inevitável. Enquanto produto dance/eletrônico, o álbum mantém-se corpos à frente da manada vigente. Tratando-se de um disco da dupla, o resultado desta vez é apenas mediano.
"Sometimes I Feel So Deserted": bleeps techno à exaustão.
Prepare-se para um mergulho profundo contra a correnteza da parca cena eletrônica brasileira atual. O Igapó de Almas vem do Rio Grande do Norte e conforme o nome do projeto indica (igapó é uma área de floresta que se mantém alagada, mesmo após as chuvas ou as cheias dos rios), reúne múltiplos elementos em suas águas e funde com rara precisão eletrônica e regionalismos em A, seu disco de estreia. Uma "mestiçagem musical", como a banda mesmo define.
Samples intrigantes flutuam na faixa de introdução "Afechadura"; lindas harmonias vocais (de Clareana Graebner) embelezam a riqueza instrumental de "A Bruxa no Trecho", emoldurada por sintetizadores, cellos, efeitos e guitarras limpas.
No enigmático texto recitado na breve "Ao Vomitório", a base funde-se às vozes num entra-e-sai de estática e ruídos sintéticos, até acabar de forma misteriosa. Em "A Maçã", a cantora Laya Lopes define: "meu samba é psicótico, meu baião é enfeitiçado", entre zabumbas e triângulos digitais. "Abruxa" traz guitarras serenas apoiadas por violão e teclados que voam mansamente de um canal pro outro do fone de ouvido. Talvez seja o momento mais desolador e bonito do disco.
A, o disco, pode ser ouvido inteiro na página do Bandcamp da banda. Confesso que é de difícil categorização, mas isso realmente não importa. O grupo conseguiu realizar um trabalho em que experimenta com ritmos eletrônicos e regionais, psicodelia e música étnica, com letras especialmente bem feitas. E consegue resultados impressionantes, na maior parte do álbum. Conversei por email com integrantes do Igapó de Almas, que explicam melhor o processo:
Desse mix
étnico-psicodélico-eletrônico de "A", quais as principais referências
musicais da banda?
Sobre essa
mistura que você citou e sobre nossas referências, a intenção primeira é
construir novas variações musicais, a partir de conexões entre os ritmos
étnicos oriundos da cultura brasileira: indígenas, caboclos &
afro-brasileiros, juntamente com a psicodelia, o progressivo setentista, e
alguns sub-genêros da música eletrônica como o trip-hop, downtempo, etc...
Todos os envolvidos no Igapó de Almas são curiosos por sons, timbres, células
rítimicas, então estamos sempre buscando.
Quais as fontes dos samples usados no álbum? São extraídos de sons ambientais in
loco ou são trechos pré-gravados?
Hmm... sim,
alguns samples ouvidos no álbum são sons que captamos in loco, na Floresta
Amazônica.
Cinco das doze faixas do álbum tem participações de vocalistas
convidados. Qual a solução para os shows?
No show nós contamos com a presença do cantor Tiago Landeira, que interpreta
todas as canções. Enquanto que no disco, o processo de gravação das faixas
cantadas se deu a partir de encontros em viagens, amizade e parceria.
Vocês sentem proximidade com alguém, musicalmente, na cena independente
brasileira?
Nós sentimos uma afinidade com algumas criações da cena independente
brasileira, no sentido de desejar realizar conexões. Mas por enquanto estamos à
margem dessa mesma cena, uma vez que o material lançado ainda é muito recente.
Seria um prazer construir interações musicais com alguém como Tom Zé ou Uakti,
por exemplo.
Há planos para lançar "A" numa mídia física, ou o ambiente virtual é
suficiente pra divulgar a banda?
O ambiente virtual não é suficiente, devido à efemeridade das relações
virtuais. Na internet tudo é muito veloz, isso é positivo, mas também negativo,
diríamos paradoxal. No entanto, tudo que tem acontecido até então é fruto do
mundo virtual. Existem planos para lançar o álbum "A" num material
físico (de preferência vinil). Mas para isso é preciso captar recursos ou
estabelecer novas parcerias. Estamos nessa busca...
O canadense Daniel Snaith deu as caras. "Can't Do Without You" é a primeira faixa disponibilizada sob a alcunha Caribou desde o sensacional Swim, de 2010 (vai estar em Our Love, o próximo disco, que sai em seguida). Em 2012 ele lançou o álbum Jiaolong creditado ao projeto Daphni, sua faceta techno/progressive.
Com a assinatura do Caribou, Snaith explora um terreno mais colorido e ensolarado, como prova essa "Can't Do Without You". Pode apostar que vem mais coisa boa.
Cabou de sair um EP de remixes de "Uncertainty", uma das faixas do bom debut dos australianos Jagwar Ma, Howlin', lançado ano passado.
O grupo (que esteve no Brasil recentemente) joga Andrew Weatherall, Aphex Twin, dub, indie dance britânica da virada 80/90, psicodelia e eletrônica no mix e consegue se sair bem tanto na pista de dança quanto no fone de ouvido. Das quatro faixas, atenção especial à desconstrução dubstep do MssingNo e ao eficiente trabalho do Cut Copy.
Não sei se o Midnight Juggernauts ficou pilhado com a recente popularidade da
neo-psychedelia dos seus conterrâneos do Tame Impala, mas a banda
mergulhou de cabeça na efervescência colorida da California sessentista
em Uncanny Valley, seu terceiro álbum a ser lançado oficialmente esta semana.
OK, eles sabem dosar a mistura. O trio vai equilibrando lisergia e eletrônica em porções homeopáticas, o que garante uma certa homogeneidade ao disco. "Melodiya" e "Streets of Babylon" celebram o passado recente da banda, com batidas dançantes e linhas de baixo enérgicas e grooveadas. "Sugar and Bullets" mantém o sacolejo eletrônico, mas os vocais são embebidos em éter e vão sumindo no ar junto com os teclados. "Systematic" é a mais orgânica e distorcida das dez faixas, com uma boa levada de baixo e bateria. Já a balada "Master of Gold" é o sinal de alerta da combinação chegando no limite: violões, percussão e efeitos de vento na planície quase colocam tudo a perder. Claro que nem tudo são flores (no cabelo). Quando os Juggernauts erram, saem coisas como a esquisitíssima "Another Land" (um synthpop de tons apocalípticos) ou a sinfonia de bolso "Memorium", com vocais sonolentos e instrumental indeciso.
O grande trunfo de Uncanny Valley é o single "Ballad of the War Machine", um momento de suprema inspiração dos australianos. Sob uma produção minuciosa, o grupo conseguiu juntar vocais flutuando entre bolhas coloridas, guitarras derretendo no ácido, uma batida lenta, sexy e funky, sintetizadores com timbragens de ARP e Moog e um enigmático jogo de palavras no refrão que diz “Godspeed, travel well / Lightning in a bottle cracks a spell / Godspeed, travel well / Fever through your body raising hell”, e que mesmo assim, gruda com espantosa facilidade no cérebro. Uma das músicas do ano. Espetacular.
Boa oportunidade de
conhecer o soul psicodélico de Shuggie Otis, com um lançamento que ainda
respinga do Record Store Day: a coletânea Introducing Shuggie Otis. Se as onças estão circulando livremente pela sua casa, recomendo o vinil 180 gramas que saiu pela Epic,
cópias numeradas e edição limitada. Vem com senha pra baixar em MP3
também. Ou, claro, você pode dar um rolê pela rede e topar com o álbum
louquinho pra ser ouvido.
A
compilação inclui gemas como "Aht Uh Mi Hed" (com percussão genial e
uma belíssima sessão de cordas) e "Strawberry Letter 23", que virou hit
com o Brothers Johnson em 1977 (a versão não escapou dos ouvidos atentos de Quentin Tarantino que a incluiu em seu Jackie Brown
vinte anos depois). A única faixa de Otis que chegou perto do sucesso
foi "Inspiration Information" de 1974, com desempenho modesto na parada
R&B da Billboard. É mais um daqueles casos em que a influência e
inspiração para artistas posteriores - além de fonte riquíssima de
samples - supera qualquer fracasso comercial. Shuggie ainda está na
ativa e finaliza um álbum de inéditas para ser lançado ainda em 2013,
chamado Cash Deep.
No mês em que o LSD completa 70 anos desde sua descoberta, o MGMT - que já foi uma banda legal - fornece uma trilha bem adequada. Psicodelia à Jefferson Airplane, o duo vêm tocando "Alien Days" nos shows há um ano. A faixa vai estar no próximo álbum da dupla, e sai exclusivamente em cassete (!), numa edição limitada lançada no Record Store Day, celebrado hoje. Com ou sem drogas, essa música do MGMT não causa nenhum outro efeito que não seja sono.
Duvido que alguém compre um CD do Animal Collective e ponha pras visitas escutarem na sala. Duvido que alguém ponha o CD do Animal Collective pras visitas escutarem na sala - e todos que gostarem do que estão ouvindo - não estejam sob efeito de alguma substância entorpecente. Duvido que alguém que diga que o Animal Collective é sua banda preferida não esteja fazendo isso só pra parecer cool. Duvido que alguém que seja cool goste realmente de Animal Collective. Duvido que alguém entenda as letras do Animal Collective. Duvido que o próprio Animal Collective entenda as suas letras. Duvido que exista hoje em dia alguma banda pseudo-experimental e neo-psicodélica mais chata e inaudível que o Animal Collective.
Tudo isso em Centipede Hz, novo álbum do Animal Collective.
"Today's Supernatural": paciência, muita paciência.